Dos dias de sol e vento

O ônibus lhe sacudia a cabeça. Tentava dormir, mas era muito barulho, e realmente sua cabeça começava a doer. Estava com o seu casaco azul marinho, uniforme escolar, e com seus cadernos no colo.

Seu cabelo era solto como sempre, não usava nenhuma maquiagem, tinha um all star sujo nos pés e ainda estava com sono. Era frio, e seus cabelos já dourados com a luz do sol eram levados de maneira irritante à janela, somente se tornando embaraçados.

Esperava sem entusiasmo para voltar para casa. Não que não gostasse de lá, pelo contrário, é porque sabia que o caminho era longo. Então logo se mergulhava nos pensamentos pendentes que quase não tinha tempo para analizar e lá ficava durante uma hora.

Fazia uma limpeza em seu interior. Como não havia música que gostasse para ouvir, tratava de ficar com alguma na cabeça. E assim, pensava, sonolenta, em tudo o que tinha feito (decidindo se aquilo foi bom, ou não) e o que ainda tinha para fazer. Mas a segunda parte a apavorava um pouco, já que não poderia agir de imediato. Estava só dentro do onibus esperando que seu ponto chegasse. E então, fugia das obrigações por alguns minutos.

Nada naquele ônibus lhe chamava atenção. Eram pessoas diferentes, mas aparentemente iguais. Os bancos cinzas, riscados com assinaturas de gente que não tinha o que fazer (como ela) e queria matar o tédio (diferente dela); janelas grandes que mais pareciam plástico, de tão embaçadas, e o som da campainha que tocavam para mostrar ao motorista (as vezes paciente, as vezes não) que queriam sair.

Finalmente estava perto do seu ponto. E odiava quando não lhe restava lugares individuais para sentar, então teria que se sentar em duplas. Ela sempre gostava da parte do banco perto da janela, porque lá observava toda a cidade. Mas era ruim quando tinha que ir embora. Sempre tropeçava na pessoa ao se lado (lhe faltava um pouco de equilíbrio).

Finalmente estava perto de casa, e andava lentamente para chegar a sua rua. Era sempre umas 16h30, e o sol fazia com que seus olhos ficassem apertados demais para poder enxergar nitidamente. Na parte de cima da rua, junto a uma sombra, sua cadelinha lhe esperava deitada. Quando a via, logo pegava a chave dentro de sua bolsa e a chacoalhava, assim chamando a atenção da cachorrinha para que viesse logo para casa.

E então descia a rua com lágrimas saindo de seus olhos (o sol era realmente ardido) e chegava ao portão.

E então abria, entrava em casa. E seu dia acabava.

frio

3 Respostas para “Dos dias de sol e vento”

  1. “E seu dia acabava”?

    Eu sei como é isso. Muitas vezes passo por isso. E você chega em casa contrariado por ter passado as duas últimas horas dentro de um ônibus apertado, com seu espaço privado podado, enquanto você faz daquele banco público (quando senta!) a sua casa.

    Passa aquelas últimas horas com uma liberdade deficiente que só lhe permite pensar e discutir consigo mesmo. E você fica ali, impedido de andar, se expressar, correr… você, de repente, por duas horas inteiras, se sente mais ainda preso em si mesmo, com todas suas vontades reprimidas. Seus objetos de desejo instantêneos são rapidamente descartados, já que você mal pode se locomover sem ferir o resto de privacidade de outrem.

    Agora, some os dias repetidos e calcule o tempo de vida que passamos presos dentro de nós mesmos. E ainda, finalmente, quando chegamos em casa, estamos cansados e nos rendemos àquela pressão que nos tomou a liberdade durante as últimas horas e, ao invés de viver: acabamos nosso dia.

  2. Curto demai da conta tuas narrativas. As vezes a rotina embassa os pequenos detalhes de coisas q agente faz tdo dia…e agente acostuma tanto q nao se importa e nem comenta mais, age de forma automatica com coisas tanto incomodas qnto prazerozas…e acaba ficando amortecido p/ vida. Vc conseguiu resgata um desses epsodios por qual tdos passam, pegando uma fatia do q eh a sua vida e narrando. Soh vc Gio!
    Lembrei q qndo andava de onibus, eu encarava como uma experiencia social. pq entrar em cada onibus era como uma caxinha de surpresa humana…podia soh ter gente mal encarada, feia e ateh de higiene duvidavel, o q me dexava paranoico em ateh senta nos bancos. Como podia ter uma(ou umas) menina linda p/ ficar olhando, ou amigos q a tempos nao via, q fazia a viagem parecer fraçoes de segundos. Ah, eu eu sempre tinha q pedir descupas qndo saia do banco duplo da janela, pq eu sempre pisava no peh dos outros, isso qndo nao smagava os dedinhos de uma pobre e inocente moça q insistiu em pega onibus de sandalia. E adorava divagar nas janelas embassadas, as vezes ateh pegava o onibus interbairros(q passava por 15 bairros) p/ demorar mais e viajar mais.

  3. Ah, esqueci de fala que adorei A LOT a antitese comparativa q vc usou na forma de comentario entre parentes no paragrafo 5. Deu um ton de irreverencia comica mas com elegancia e passou a sua postura qnto a vandalismo inultil e q isso eh fruto de canalizaçao errada de tempo de vida.
    Sabe, eh outro motivo pelo qual adoro suas narrativas. pq num primeiro momento vc entende o texto. depois vc veh a beleza de como ele foi feito(nao q seja perfeito, eu noto erros de regencia, coerencia e outros mas q sao banais perto da ideia q ele transmite) e ai extravasando compreensao e razao, vc tem discernimento do que vc imprimiu no texto Gio. Vc mostra uma condiçao humana/pisicologica sua, q vc criptou na forma de um texto, emoldurando ele com a beleza artistica. Vc cria um misterio do q eh vc, envolto num enigma, na forma de uma charada alfabetica q eh o seu texto. Todas as suas narrativa me lembram um quadro impressionista e o q Renoir fala de sua arte. ele dizia q nao fazia a arte p/ ficar no quadro, mas p/ se formar nos olhos de kem sabia ver.Eh como se um mosaico, um pontilismo q de perto sao pontinhos coloridos, mas q soh se nota algo qndo vc tem uma visao do tdo.
    CARACA, me empolguei e falei demai. SORRY!
    p/ compensa fico sem comenta uns meses aki!! o.O XD
    bjos Gio.

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